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A escrita como espaço de criação e deslocamento

  • Foto do escritor: Gabriela Mello
    Gabriela Mello
  • há 12 horas
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 3 horas

A escrita, especialmente a poética, nunca foi apenas um meio de comunicação. Ela é, antes de tudo, um campo de experimentação do pensamento e da sensibilidade. Quando escrevemos poesia, não estamos apenas organizando palavras conhecidas; estamos tensionando a linguagem, deslocando sentidos e criando espaços onde o significado é construído no encontro entre palavra e leitura.


É nesse território instável que a poesia se distingue de outras formas de escrita. Enquanto a linguagem cotidiana busca precisão, funcionalidade e clareza imediata, a poesia se permite ambiguidade, invenção e estranhamento. Por isso, falar sobre a construção de palavras em poesia exige voltar a uma pergunta fundamental;


"o que é, afinal, uma palavra?"




O que é a palavra. linguagem, escrita e pensamento


A palavra é um conjunto de letras organizadas segundo uma regra gramatical. E não apenas isso, ela é uma unidade simbólica que carrega, ao mesmo tempo, som, forma e sentido. Ao escrever, lidamos com mais do que vocábulos; lidamos com estruturas transformam cultura, história e subjetividade.


A escrita cristaliza algo que, no pensamento, é fluido. Pensamos de maneira fragmentada, associativa, muitas vezes não linear. Em contrapartida, a palavra escrita exige escolha. Entre infinitas possibilidades, uma forma é fixada. E essa escolha nunca é neutra.


Na poesia, essa relação se intensifica porque, cada palavra carrega peso, ritmo, textura. A palavra não serve apenas para nomear algo; ela cria atmosfera, provoca imagens, convoca sensações. Assim, a escrita poética evidencia algo essencial; a palavra não é apenas um reflexo da realidade, mas uma ferramenta ativa de criação de sentido.





O conceito de “erro” na escrita. por que ele não se sustenta na poesia


A noção de erro na escrita costuma ser tratada como algo objetivo, quase matemático. Uma palavra estaria certa ou errada segundo regras gramaticais, dicionários ou convenções normativas. No entanto, quando deslocamos essa ideia para o campo da poesia, essa lógica deixa de se sustentar. O que chamamos de “erro” passa a revelar-se como uma construção histórica, social e funcional.


Na linguagem normativa, o erro existe para garantir inteligibilidade, padronização e estabilidade comunicativa. Ele serve a propósitos específicos, como ensino formal, comunicação jurídica, produção científica ou transmissão objetiva de informação. Nesses contextos, a previsibilidade da língua é uma necessidade. Contudo, a poesia não nasce dessa mesma exigência. Ela não tem como objetivo principal a padronização do sentido, mas a abertura dele.


Quando alguém diz que um poema está “errado”, geralmente está medindo esse poema a partir de critérios que não pertencem à sua natureza. Está exigindo da poesia aquilo que se espera de um relatório, de uma notícia ou de um manual. O problema não está na regra, mas na aplicação indevida da regra a um território onde ela não é soberana.


Na poesia, a linguagem é muito mais que um veículo; ela é matéria. O poeta trabalha a palavra como quem trabalha barro, som ou cor. Distorções, neologismos, rupturas sintáticas e desvios gramaticais não surgem por descuido, mas por intenção estética, rítmica ou semântica. Quando há intenção, não há erro; há escolha.


O que muitas vezes é nomeado como erro é, na verdade, um deslocamento. Um deslocamento do uso convencional para um uso expressivo. A palavra que “não existe” no dicionário passa a existir no poema porque cumpre uma função interna. Ou seja, ela produz um efeito, ela cria sentido naquele sistema específico de linguagem que o poema constrói.


Nesse ponto, é importante compreender que a correção linguística não é um valor universal, mas contextual. O que é considerado inadequado em um contexto pode ser absolutamente pertinente em outro. A poesia opera segundo regras próprias, ainda que muitas vezes invisíveis. Ritmo, sonoridade, tensão semântica e coerência interna passam a ser critérios mais relevantes do que a obediência estrita à norma.


Além disso, a ideia de erro pressupõe um centro fixo de linguagem, como se houvesse uma forma original, pura e correta da língua. No entanto, a própria história da linguagem mostra o contrário. As línguas se transformam justamente porque pessoas “erram”. Usos desviantes se consolidam, palavras inventadas se estabilizam, construções antes consideradas incorretas tornam-se norma com o tempo.




A língua é viva porque é instável.



A poesia, nesse sentido, antecipa movimentos da linguagem explorando possibilidades antes que elas se tornem comuns. O poeta escreve para tensionar aquilo que ainda não foi dito. A invenção poética expande o campo do dizível.


Há também um aspecto subjetivo profundo nessa questão: Quando se rotula um gesto poético como erro, frequentemente se está invalidando uma experiência sensível. A palavra inventada, a estrutura quebrada ou a sintaxe deslocada carregam uma tentativa de dizer algo que não caberia nos moldes convencionais. Chamar isso de erro é, muitas vezes, recusar-se a escutar.


Isso não significa que tudo vale ou que qualquer escrita é automaticamente poética. A ausência de regras fixas não implica ausência de rigor. A poesia exige um outro tipo de precisão, mais sutil e mais exigente: Cada escolha precisa sustentar o sentido do conjunto porque, o desvio que não produz efeito, que não dialoga com o todo ou que enfraquece a experiência do poema pode ser questionado esteticamente, mas não como erro gramatical no sentido tradicional.


Assim, o conceito de erro na poesia precisa ser substituído pelo conceito de pertinência poética. Logo, a pergunta não é se a palavra está correta, mas se ela funciona naquele universo simbólico, se ela vibra com o ritmo do poema, se ela cria imagem, tensão ou estranhamento, se ela participa da construção de sentido.


Escrever poesia, portanto, não é errar a língua. É levá-la até onde a linguagem comum não alcança.





A intenção na palavra. quando o sentido nasce antes do dicionário

Na poesia, a palavra nasce de uma intenção. Antes de existir como registro formal, como definição estabilizada ou como verbete, a palavra surge da necessidade de dizer algo que ainda não encontrou nome. Sendo assim, é nesse ponto que o sentido antecede o dicionário.


Ao afirmar, em um poema, que o ar está salmarino, não estou tentando subverter a língua por descuido, nem criar estranhamento gratuito. Estou operando a linguagem a partir de uma intenção sensível. A palavra surge porque nenhuma outra daria conta, sozinha, da experiência que se deseja comunicar.


No poema Marina Salgada, isso se torna visível:




Marina Salgada

contingência do meu incontingente segredo

do ar da marina

da minha salgada


sinto o fôlego voar

sinto o fio esvoaçar

a textura salmarina

minha leitura do amar

@gasli_4



Aqui, a escrita nbusca construir uma atmosfera sensorial. O poema trabalha com cheiro, textura, ar, sal, respiração e afeto. As palavras estão ali para provocar sensação.


A palavra salmarina, por exemplo, nasce da fusão entre sal e marina. Ela não nomeia simplesmente algo que pertence ao mar, como “marinho” faria. Ela mistura estados: Salgar o ar, tornar o ambiente impregnado de mar, criar a sensação de um cheiro salgado que não possui, na língua comum, um nome específico. Portanto, a palavra funciona porque carrega intenção e porque o contexto do poema constrói seu sentido.


O leitor não precisa conhecer previamente a palavra para compreendê-la porque, o significado emerge da relação entre os elementos do poema; do ritmo, das imagens, da respiração dos versos. Sendo assim, o sentido nasce antes do dicionário e a palavra deixa de ser erro e passa a ser criação; e é nesse gesto que a poesia amplia a língua.





Considerações finais. quando a palavra não erra, mas se desloca


Ao percorrer os caminhos da poesia, torna-se cada vez mais evidente que a noção de erro, tal como é entendida na escrita normativa, não se sustenta integralmente no território poético. O que se chama de erro, muitas vezes, é apenas um deslocamento, um gesto intencional de afastamento da forma estabilizada em direção a uma necessidade expressiva mais profunda.


Erro, portanto, não é o desvio da norma, mas a ausência de sentido. Não é a palavra que foge ao dicionário, mas aquela que não sustenta sua existência no texto. Sendo assim, quando há intenção clara, coerência interna e abertura à leitura, o que se chamaria de erro transforma-se em criação.

A poesia nos ensina que escrever não é repetir a língua, nem obedecer cegamente às formas dadas, mas escutá-las, tensioná-las e, quando necessário, reinventá-las. Nesse gesto, a palavra deixa de ser um limite e passa a ser um campo de possibilidades.


Talvez seja isso que a poesia afirma, em última instância: A linguagem não é um sistema fechado”. É um território em constante movimento e escrever poesia é aceitar esse movimento, habitá-lo e confiar que o sentido não nasce da correção absoluta, mas do encontro entre intenção, signo e leitura.



 
 
 

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