Você está em liquidação ou no seu atelier?
- Gabriela Mello
- 24 de jan.
- 7 min de leitura
Atualizado: há 3 horas
Vivemos em uma cultura que nos ensina, desde cedo, a tentar:
Tentar agradar;
Tentar caber;
Tentar ser suficiente;
Tentar ser escolhida.
No entanto, raramente somos ensinadas a definir padrões. E é justamente nessa diferença, silenciosa porém decisiva, que muitas trajetórias se desviam de si mesmas. Enquanto "tentar" nasce da insegurança, "escolher" nasce da clareza. Essa distinção, embora sutil, é profunda; pois determina não apenas o que se conquista, mas sobretudo como se vive aquilo que se conquista.
Este texto é um convite à reflexão sobre como a ausência de padrões claros afasta o indivíduo da realidade que deseja viver e como, paradoxalmente, quanto mais alguém se diminui para caber em uma conquista, mais distante fica daquilo que verdadeiramente busca.

A metáfora da liquidação e do atelier
Imagine duas cenas.
Na primeira, você entra em uma loja em liquidação:
As peças estão misturadas, os tecidos nem sempre agradam, os tamanhos raramente vestem com precisão; ainda assim, existe pressa. Aproveitar é quase um imperativo moral. Você experimenta o que aperta, o que sobra, o que não representa quem você é; porém leva mesmo assim, porque estava disponível, porque parecia uma oportunidade, porque, de algum modo, dava para ajustar.
Na segunda cena, você entra em um atelier:
Ali, nada é improvisado. O tecido é escolhido com atenção, a modelagem respeita o corpo, o tempo é parte do processo. Se não serve, não se força; simplesmente não é feito. O atelier não tenta agradar a todos; ele cria com intenção, para quem reconhece o valor do que ali nasce.
Muitas pessoas, embora desejem uma vida de atelier, seguem vivendo escolhas como se estivessem eternamente em liquidação.

O “tentar” como estrutura de insegurança
Quando alguém se posiciona a partir do “estou tentando”, algo quase invisível acontece: instala-se uma lógica de instabilidade.
Tentar conquistar um relacionamento;
Tentar manter um espaço;
Tentar não incomodar;
Tentar ser menos para caber.
Tudo isso comunica, ainda que silenciosamente, uma mensagem interna de insuficiência.
O problema é que o “tentar” cria uma energia de falta. E aquilo que nasce da falta dificilmente se sustenta.
Mesmo quando a conquista acontece, surge um cansaço constante. Uma sensação de esforço permanente, como se o descanso colocasse tudo em risco. Assim, mesmo alcançando o que era desejado, algo permanece fora do lugar.
E então surge a pergunta, quase sempre abafada:
“Eu consegui o que queria, mas por que ainda não me sinto completa?”
O aspecto neurológico. como o cérebro aprende a viver em tentativa
Cada situação vivida sob o código do “preciso tentar” ativa circuitos ligados à vigilância, ao medo de erro e à antecipação de perda. Com o tempo, o cérebro passa a associar vínculo, trabalho e reconhecimento à tensão. Mesmo quando não há ameaça real, o organismo se mantém em alerta, pois foi treinado para funcionar assim.
A insegurança gera comportamento de adaptação excessiva; esse comportamento reforça a ideia de que é preciso esforço constante para ser aceito. Nesse contexto, a pessoa pode até estranhar relações, ambientes ou oportunidades que oferecem estabilidade. Logo, o sistema nervoso, acostumado ao esforço, desconfia do repouso. Assim, o que é saudável pode parecer entediante; o que é instável pode parecer familiar.
Quebrar esse ciclo exige mais do que decisões racionais; exige a construção consciente de novos padrões de comportamento. Ao repetir limites claros, o cérebro começa, lentamente, a registrar segurança como possibilidade. Por fim, o corpo aprende que não precisa lutar para existir.

Conquistas pela metade não sustentam o ser
Ao conquista algo sem estar inteira em si, você chega a esse lugar incompleta. Não porque falte valor externo, mas porque partes internas ficaram pelo caminho: Limites, intuições, desejos e verdades foram negociados em nome da permanência. Por isso, ainda que o relacionamento exista, o trabalho esteja garantido ou o reconhecimento aconteça, a satisfação não se estabelece.
Falta presença. Falta alinhamento. Falta pertencimento interno.
O mundo responde, invariavelmente, ao nível de integridade com que nós escolhemos. Se entramos pela metade, recebemos pela metade. Se nós apresentamos fragmentadas, a experiência se fragmenta junto.
Cada concessão que subtrai cobra um preço posterior
Toda vez que um limite interno é ultrapassado em nome da adaptação, algo se rompe em silêncio. No início, parece pequeno; quase irrelevante. Assim, ao longo do tempo, essas pequenas concessões se acumulam e passam a cobrar um preço alto. Surge o distanciamento de si; a dificuldade de nomear o incômodo; a sensação de viver algo que, embora funcione externamente, não ecoa internamente. A insatisfação persiste porque nenhuma conquista externa compensa o abandono interno.
Aquilo que não respeita quem você é jamais poderá te completar.

Padrões como forma de segurança, não de rigidez
Existe uma confusão recorrente entre ter padrões e ser inflexível. Entretanto, padrões não são mecanismos de controle; tampouco expressam superioridade. Padrões são, antes de tudo, estruturas de segurança emocional e existencial.
Ter padrões significa saber responder, com honestidade, perguntas simples e fundamentais:
Isso me respeita?
Isso me expande?
Isso exige que eu me abandone?
Isso preserva minha integridade?
Quem possui padrões não precisa disputar espaço nem justificar limites; simplesmente não permanece onde precisa se diminuir para existir.
O aspecto espiritual. como você se apresenta ao mundo e como o mundo responde
Quando uma pessoa se apresenta a partir da insegurança, sua energia comunica abertura excessiva e fronteiras difusas. Ainda que inconscientemente, o mundo percebe essa ausência de delimitação. Pessoas, situações e experiências se aproximam não por afinidade profunda, mas pela facilidade de atravessamento. Logo, a falta de padrões cria um campo de permissividade.
Do ponto de vista espiritual, os padrões representam um pacto interno. Um acordo silencioso de não se abandonar mais. Esse acordo se manifesta no olhar, na postura, na forma de falar, de escolher e de permanecer. O mundo lê essa linguagem com precisão.

Como a ausência de padrões se manifesta nos relacionamentos amorosos
Nos relacionamentos amorosos, a lógica da liquidação se revela com ainda mais força; afinal, é no campo do afeto que o medo de perder costuma falar mais alto. Dessa forma, muitas pessoas não entram em relações para escolher, mas para tentar;
tentar ser amada, tentar ser suficiente, tentar não ser abandonada.
Dessa forma, o amor deixa de ser encontro e passa a ser esforço contínuo.
Sem padrões internos claros, a ansiedade encontra terreno fértil: A pessoa não sabe exatamente o que espera, nem o que não aceita; por isso, qualquer migalha de afeto parece melhor do que a ausência total. Entretanto, viver em alerta constante é incompatível com o amor que acolhe. A construção de padrões, nesse contexto, oferece estrutura para que ela não dite as decisões. Quando se sabe o que é essencial, o vínculo deixa de ser uma prova diária de valor e passa a ser uma escolha compartilhada. Assim, o amor deixa de ser tentativa e se transforma em presença.
É nesse ponto que se forma uma dinâmica perigosa:
O relacionamento até existe, mas exige adaptação constante; exige silenciamento; vigilância emocional. Ama-se, porém com medo. Entrega-se, porém incompleta.
Ao entrar em uma relação sem clareza interna, os vínculos refletem essa falta de clareza e você conquista relações pela metade, porque também se apresenta pela metade. Assim, mesmo estando acompanhada, sente-se só; mesmo sendo escolhida, sente-se insegura; mesmo sendo amada, sente que precisa provar valor todos os dias.
Relacionamentos construídos a partir da tentativa criam ciclos de ansiedade; já aqueles construídos a partir da escolha criam repouso. Escolher-se, nesse contexto, é dizer, com ações e não apenas com palavras, que amor não deve ferir para existir; que vínculo não deve confundir para se manter e que reciprocidade é a base.

Trabalho e carreira. quando o valor pessoal depende da validação externa

Muitas pessoas constroem suas carreiras a partir do “preciso provar”. Provam competência; provam disponibilidade; provam resistência; provam comprometimento. Com o tempo, no entanto, aquilo que começou como dedicação se transforma em exaustão.
Sem exigir padrões claros no trabalho, aceita-se mais do que se pode sustentar. Aceitam-se funções mal definidas; jornadas excessivas; desvalorização simbólica; reconhecimento condicionado ao sacrifício. Tudo isso em nome da permanência, da oportunidade ou do medo de perder espaço. Entretanto, ao se anular para ser indispensável, mais substituível você se torna internamente. O trabalho cresce, mas o sentido diminui; a carreira avança, mas o indivíduo se distancia de si. Surge, então, a sensação de estar sempre correndo e nunca chegando.
Se posicionando com clareza, o trabalho deixa de ser tentativa constante e passa a ser expressão. A carreira deixa de ser uma fonte de sobrevivência, para se tornar um campo de coerência entre quem se é e o que se faz. E essa coerência, mais do que qualquer validação externa, sustenta o longo prazo.
Não fomos feitos para viver de sobras
Ninguém nasce para viver de sobras afetivas, profissionais ou existenciais. Ninguém nasce para ser aceito apenas quando facilita, quando silencia ou quando encolhe. A realidade que verdadeiramente sustenta exige algo específico; presença inteira. E essa inteireza nasce da coragem de se escolher antes.
Sair da lógica da liquidação é um gesto de responsabilidade consigo mesma. Voltar ao próprio atelier é reconhecer que nem tudo precisa ser aceito, conquistado ou mantido a qualquer custo.

Considerações finais. escolher-se não é perder, é alinhar
Ao longo deste texto, tornou-se evidente que a lógica da tentativa não é apenas um comportamento passageiro, mas uma estrutura que atravessa relações, trabalho, corpo, mente e espírito. Quando alguém vive tentando, vive em estado de concessão constante; e aquilo que começa como adaptação termina como distanciamento de si. Por outro lado, quando há clareza, algo se reorganiza, os padrões se estruturam. Eles ensinam o cérebro a descansar, o coração a confiar, as relações a se equilibrarem e o mundo a respeitar. Escolher-se, nesse sentido, é um ato de responsabilidade existencial; pois só quem permanece inteiro pode construir algo que não se quebre ao primeiro conflito. Por fim, talvez a pergunta mais honesta seja: "o que precisa ser interrompido?".
Interromper o hábito de se diminuir.
Interromper o treinamento da insegurança.
Interromper os vínculos que exigem apagamento.
Voltar ao próprio atelier é um gesto silencioso, porém definitivo. É decidir que aquilo que você constrói a partir de agora precisa te conter inteira e quando isso acontece, o mundo não precisa ser convencido; ele apenas responde.


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